Projeto com clima amistoso estreia o primeiro texto de Fernanda Torres como dramaturga e traz de volta a dupla com Luiz Fernando Guimarães. Ainda no elenco, Francisco Cuoco, Jorge Mautner entre outros
Hamilton Vaz Pereira já procurava uma boa desculpa para trabalhar novamente com Luiz Fernando Guimarães. Recebeu das mãos do intérprete o primeiro texto de Fernanda Torres para teatro, e, sem titubear, aceitou o convite para dirigir a comédia de humor nonsense, “Deus é química”, que estreia dia 13 de agosto, às 21h, no Teatro dos Quatro. “Participar de um projeto com os dois já seria um belo motivo, mas, quando li o texto, vi o quanto era inteligente e interessante. Aceitei na mesma hora”, conta o diretor.
Fernanda tinha acabado de ler a biografia de Thimothy Leary “Flashbacks: Surfando no caos”, quando se deparou com “Química da ressurreição”, conto de Jorge Mautner publicado no livro “Tarja Preta”. Da inspiração surgiu “Deus é química”. A história traz à tona uma discussão atual, tabu e polêmica: drogas, lícitas e ilícitas.
“Quando Nanda me mostrou a peça, pensei que fosse impossível, podia tender a apologia, tivemos várias discussões sobre o tema. Ouvimos muita gente e chegamos a conclusão que não podíamos fechar os olhos para um tema como esse. O ser humano cresce sabendo o que é, ou pelo menos ouvindo falar. As drogas, proibidas ou não, estão nas nossas vidas desde sempre”, explica Luiz Fernando Guimarães, ator convidado por Fernanda Torres a dividir com ela, o papel principal do espetáculo. “A química entre nós é intensa no palco e na vida, somos muito amigos e levamos isso para os trabalhos também”.
O público pode estranhar ao ver o palco quase nu, com 12 pessoas distribuídas entre cadeiras e microfones. A proposta é incentivar ao máximo a criatividade do espectador. “Optamos por um espetáculo que faz menção a um espetáculo. Sem oferecer 100% do que a peça poderia dar, aproveitamos ao máximo o nosso poder de sugestão e aguçamos a imaginação da plateia. Procuramos mostrar que o tema ‘humanidade x drogas’ não será esgotado aqui”, explica o diretor.
O texto conta a história de um casal (Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres) que está “preso” em casa por causa de mais um tiroteio na Rua Barão da Torre, em Ipanema. Adão (Luiz Fernando Guimarães) espera uma “pizza” e Eva (Fernanda Torres) assiste ao velório do Papa João Paulo II. De repente, batidas à porta: é um ex-professor da USP (Francisco Cuoco) que fora banido por incentivar o uso das “drogas da felicidade” nos anos 1960 e 1970. Ele lhes faz uma visita e, em uma das suas explicações sobre a vida, os apresenta a Babadá (Jorge Mautner). A partir daí o casal embarca numa viagem por lugares como Himalaia, Afeganistão, Bagdá, Amazônia, num divertido, tenso e intenso roteiro. �
“Gostei particularmente do texto porque me remeteu a um passado de quase 30 anos. No último texto do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone’ (“A farra da terra”) o mundo estava tomando consciência da globalização e no espetáculo usamos muitos cenários, viajamos para muitos lugares do mundo, mostramos personagens fora de seu hábitat. Isso era muito diferente, inovador. Achei que o Brasil teatral fosse se abrir para o mundo, mas não aconteceu. Poucos dramaturgos se arriscam a mostrar sua visão mundial. Quando vi os protagonistas de “Deus é química” viajando para o exterior, percebi que, pela primeira vez, estava diante de uma obra que não era minha e olhava para o mundo externo ao Rio, ao Brasil, de maneira inteligente e cativante. Hoje estou dirigindo um texto que não é meu e me identifico especialmente com ele”, comenta Hamilton.
“Hoje, se você consome drogas ilícitas, contribui para violência, tráfico, guerra. A alusão à sensação de liberdade que as drogas traziam nos anos 1970 foi substituída pela tomada de consciência de seus malefícios. Em 30 anos mudou o ponto de vista. Acho isso impressionante. Ao mesmo tempo, temos o crescimento gigantesco do mercado de antidepressivos. E, atualmente, qualquer tristeza é medicada”, explica a atriz, que estreia seu primeiro texto como dramaturga.
A encenação, o elenco
“É uma temeridade tentar se livrar da angústia”, Fernanda Torres
A sonorização foi uma das preocupações de Hamilton, que chamou Wallace Cardia, parceiro em muitos outros trabalhos, para musicar o espetáculo. Wallace é o criador de todos os sons e músico também em cena. Os atores todos estarão microfonados. “O espectador poderá fechar os olhos e se satisfazer. O espetáculo é sonoro, quase um musical de bolso”, ilustra Fernanda.
A direção de arte ficou a cargo de Gualter Pupo, figurinos por Felipe Veloso, trilha sonora assinada por Hamilton Vaz Pereira e Wallace Cardia, direção musical de Pedro Luis com co-direção de Wallace.
Um dos trunfos do projeto “Deus é química” é o elenco, que reúne três gerações. No pilar do espetáculo os já conhecidos do grande público Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Francisco Cuoco e Jorge Mautner. Contam ainda com a participação de Fransérgio Araújo, cria do Teatro Oficina. O coro (atores-músicos) é composto por Cesar Miranda, João Lucas Romero, Lucas Oradovsky, Saulo Segreto e Vicente Coelho.
A estreia inusitada de Jorge Mautner como ator foi um desafio. “Participei da leitura desde o início. Estou adorando. Tenho experiência de palco, mas como músico. O mais difícil é decorar as marcações de cena. O teatro é muito minucioso. Tenho sorte, já cheguei trabalhando um texto formidável, genial, inovador e audacioso. Uma trama cheia de suspense e poesia”, conta o músico.
Francisco Cuoco está de volta aos palcos. Esteve em cartaz há pouco tempo com a peça “Circuncisão em Nova York” e, agora, em “Deus é química” representa o “professor”, uma alusão a Thimoty Leary, controverso professor de psicologia da Universidade de Harvard, dos EUA, militante dos benefícios psicológicos das drogas nos anos 1960 e 1970. “Eu trabalhei com mãe, pai e irmão. Agora trabalho com a filha. Eu sempre enxerguei o talento diferenciado de Nanda (Fernanda Torres). Vi o leque completo na TV, cinema e teatro. No texto de “Deus é química” ela consegue trazer à tona questionamentos como liberdade de expressão, depressão, medo; assuntos contemporâneos com um texto leve, saboroso e extremamente inteligente”, elogia Cuoco.
O clima harmonioso e íntimo do elenco foi trabalhado em leituras e ensaios. “No palco temos atores de escolas distintas, busquei harmonizar as diferenças. Procurei deixá-los cada vez mais à vontade, e tenho certeza de que a plateia vai sentir isso. Meu olhar entra aqui, sou um profundo incentivador da diversidade”, declara Hamilton Vaz Pereira.
Ficha Técnica
Texto: de Fernanda Torres com a colaboração do conto “A Química da Ressurreição”, de Jorge Mautner.
Direção artística: Hamilton Vaz Pereira
Com: Luiz Fernando Guimarães / Fernanda Torres
Francisco Cuoco / Jorge Mautner / Fransergio Araújo
Bateria e efeitos sonoros: Wallace Cardia
Leituras rubricas: Saulo Segreto
Coro: Cesar Miranda, João Lucas Romero, Lucas Oradovschi e Vicente Coelho
Direção de arte: Gualter Pupo
Iluminação: Jorginho de Carvalho
Figurinos: Felipe Veloso
Trilha sonora: Hamilton Vaz Pereira e Wallace Cardia
Direção musical: Pedro Luis
Co-direção musical: Wallace Cardia
Idealização: Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres e Hamilton Vaz Pereira
Direção de produção: Carmen Mello
Consultoria de projeto: Márcia Dias
Consultoria Jurídica: Marcelo Salomão
Produção gráfica: Radiográfico
Assessoria de imprensa: RPM Comunicação
Produção executiva: Bianca Siqueira e Cristina Inácio
Direção de cena: Julio Miranda
Assistente de direção: Saulo Segreto
Assistente de direção de arte: Erick Fuly e Cínthia Fernandes
Assistente de figurino: Leo Neves
Assistente de produção: Igor Biond
Controller: Ricardo Rodrigues
Contador: Contsist
Transporte: Luiz Antônio Rodrigues
Produção: Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres e Carmen Mello
Realização: Trígonos Produções Culturais
Agradecimentos: Evandro Mesquita e Perfeito Fortuna
SERVIÇO
Deus é Química – Estreia 13 de agosto, às 21h
Teatro dos Quatro – Rua Marquês de São Vicente, 52 – 2º andar – Shopping da Gávea – Gávea
Tel.: (21) 2274-9895
Horário: Quinta a sábado às 21h. Domingo às 20h
Duração: 90′
Classificação: 16 anos
Capacidade: 402 lugares
Temporada: de 13 de agosto a 27 de setembro
Ingresso: quinta R$ 60; sexta R$ 70; sábado e domingo R$ 80 (meia-entrada para estudantes e idosos).
Venda pela internet: www.ingresso.com
Acesso para deficiente – Estacionamento no shopping
Venda na bilheteria: diariamente a partir das 14h
