Uma fábula sobre a ignorância, o preconceito e o amor incondicional, Agreste Malvarosa, texto do pernambucano Newton Moreno, é um vigoroso manifesto poético, que nasceu numa encruzilhada que confronta o imaginário nordestino e o discurso limítrofe das sexualidades contemporâneas. A montagem, que tem no elenco as atrizes Rita Elmôr e Millene Ramalho, traz as assinaturas de Stephane Brodt e Ana Teixeira, diretores da consagrada Cia Amok Teatro.

Texto premiado de Newton Moreno ganha montagem assinada por Stephane Brodt e Ana Teixeira, diretores da Cia Amok Teatro

É a primeira vez que a dupla aceitou o desafio de dirigir um trabalho fora da companhia. “Fomos seduzidos pelo texto do Newton e vimos nas atrizes um desejo de experimentar um processo de trabalho mais longo e trabalhar com a linguagem do grupo”, diz Ana Teixeira.  O espetáculo estreia dia 22 de janeiro, no Teatro Municipal Jockey, na Gávea, e permanece em cartaz até 14 de março.

Para esta segunda montagem de uma obra que levou os prêmios Shell e APCA (2004), Newton precisou revisitar o texto, transformando-o para a encenação de um elenco feminino. Dessa forma, a peça ganhou o sobrenome Malvarosa, que vem de uma planta chamada Malva Rosa, misteriosa e apontada como tendo poderes de cura para os males femininos. “Queria um texto que me tocasse. Quando conheci Agreste, decidi montar o espetáculo pela simplicidade e intensidade da linguagem. Conversei com Newton sobre a escolha do diretor e ele confessou que havia escrito o espetáculo pensando na direção de Ana e Sthephane”, diz a atriz Millene Teixeira.

A história começa com um flerte no meio da cerca, quando um casal de lavradores descobre o amor. Cada um de um lado da cerca. Apesar de perceber que há “algo no amor deles que não deveria acontecer”, um dia o casal de lavradores foge, rompe a cerca para viver junto em um casebre sertão adentro.
 
“É uma história que acontece numa cidade do interior, um homem e uma mulher que descobrem e vivem o amor incondicional. Simples assim. Só que eles se apavoram, porque desde o princípio sentem que um perigo paira no ar. E tem todo aquele jogo de aproximação: o jeito de chegar é manso, tímido, as coisas demoram para acontecer, tudo leva tempo”, diz o autor Newton Moreno, que se inspirou em um fato real para conceber o texto.

Agreste Malvarosa recorre a um dos elementos do imaginário sertanejo – a figura da mulher que se finge/traveste de homem. Aborda a reflexão sobre até onde essas mulheres tinham consciência de seus corpos, de suas cascas e de sua transgressão. Até onde pode chegar o grau de desinformação do povo no interior deste país. Na construção cênica, as atrizes Rita Elmôr e Millene Ramalho criam uma realidade móvel, plástica e tridimensional, explorando a totalidade de suas possibilidades expressivas. Em cena, elas introduzem o sertão assim como fazem os repentistas, narram e representam as personagens dessa história, montando e desmontando a cena com o mesmo domínio com que assumem a passagem narrador-personagem/ personagem-narrador.

A exemplo do que se dá com todas as montagens da Cia Amok Teatro, a presença da música é muito forte e tende a ser um elemento revelador da cultura local, proporcionando ainda a idéia de um lugar de sonho e conferindo ao corpo uma nova possibilidade de viver, livre dos códigos sociais. “Propusemos resgatar a tradição do contador de histórias e extrair dessa tradição a teatralidade. Queremos recriar o agreste e não mostrar a realidade do agreste”, explica Ana.

AMOK TEATRO
O Amok Teatro tem recebido por todos os seus espetáculos um grande reconhecimento da crítica e do público. Com Cartas de Rodez (1998) recebeu o Prêmio Shell de direção, de melhor ator e o prêmio Mambembe de melhor espetáculo, além da indicação de direção. O Carrasco (2001) recebeu o prêmio Governo do Estado de espetáculo e foi indicado para direção e categoria especial para maquiagem e figurino, além da indicação para o prêmio Shell de melhor atriz e categoria especial para maquiagem. Macbeth (2004) foi indicado para o prêmio Shell de figurino. Savina (2006) foi indicado ao prêmio Shell de figurino e O Dragão (2008) foi indicado para prêmio Quem de melhor ator e atriz. Em 2009, encenaram Kabul, a segunda parte da trilogia sobre teatro em tempos de guerra, iniciada com O Dragão.

SINOPSE
A história começa com um flerte no meio da cerca,  quando um casal de lavradores descobre o amor. Cada um de um lado da cerca. Apesar de perceber que há “algo no amor deles que não deveria acontecer”, um dia o casal de lavradores foge, rompe a cerca para viver junto em um casebre sertão adentro. Pressentem que algo de perigoso paira sobre eles. Depois de vinte e dois anos de casados, a esposa compreende o porquê, ao perder subitamente o marido.

CURRÍCULOS
RITA ELMÔR é bacharel em artes cênicas pela UniRio(1998) e tem pós-graduação em filosofia antiga na PUC/RJ(2007). Indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação no monólogo Que Mistérios Tem Clarice, com textos de Clarice Lispector. Teve atuação destacada no monólogo Tereza D’ Ávila, A Santa Descalça, em cujo texto colaborou. Trabalhou nas peças A Mais Forte, de Strindberg, direção de Camila Amado; Cora Coralina Coração Encarnado, direção de Orã Figueiredo, e Avós, Mulheres e Couves Portuguesas, direção de Joana Lebreiro. Dividiu o palco com Beatriz Segall na peça Histórias Roubadas, texto de Donald Margules (prêmio Pulitzer); direção de Marcus Caruso, São Paulo. Encarnou Ofélia no espetáculo Hamlet, montado por Diogo Vilela, e atuou ao lado de Nathália Timberg em Melanie Klein, direção de Eduardo Tolentino. Na televisão viverá a cantora de rádio Marlene, na minissérie Dalva e Herivelto, a ser exibida na TV Globo, em janeiro de 2010. Fez a prima Justina na microssérie Capitu, direção de Luiz Fernando Carvalho, e atuou na minissérie Os Maias, do mesmo diretor. No cinema, interpretou Clarice Lispector no média-metragem De Corpo Inteiro, direção de Nicole Algranti, e em diversos curtas-metragens

MILLENE RAMALHO é natural de Campina Grande, formou-se em 2003 na CAL – Casa de Artes das Laranjeiras e atualmente cursa o último período da Faculdade Angel Vianna – RJ. Trabalha com produção musical desde 2005. Obteve durante sua carreira orientação de Enrique Dias, Camila Amado, Zé Celso Martinez Corrêa, Massud Saidpour, Karen Acioly, Marilena Bibas e Elena Konstantinovna. Em 2002, foi assistente de direção de Gabriel Villela, para as gravações do show ao vivo de Elba Ramalho. Participou como atriz das produções Os Sete Gatinhos (direção de Adriano Garib – 2002), A Mais Bela História de Amor (direção de Henrique Kaladan – 2002) e  O Santo Inquérito (direção de Gilberto Gawronski – 2003). Estudou teatro em Paris, retornando ao Brasil em 2007, a convite do diretor de cinema Luiz Fernando Carvalho, para encenar a personagem Margarida em A Pedra do Reino, microssérie da TV Globo. Fez algumas participações em novelas.

NEWTON MORENO é autor, diretor e ator. A peça de maior repercussão é a quarta a ser encenada, Agreste, direção de Marcio Aurelio, em 2004. Ganha os prêmios Shell de Teatro e Associação Paulista dos Críticos de Artes – APCA, ambos por melhor texto. Trabalhou como ator em Senhorita Else, de Arthur Schnitzler; O Maligno Baal, de Bertolt Brecht; e A Arte da Comédia, de Eduardo De Filippo, produções do grupo Razões Inversas, com direção de Marcio Aurelio. Em 2000 integra o elenco de Sacromaquia, de Antonio Rogério Toscano, outra produção da Companhia Balagan e, em 2003, está em A Mulher do Trem, de Maurice Hennequin e George Mitchell, espetáculo da companhia Os Fofos Encenam.

FICHA TÉCNICA
Autor: Newton Moreno
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Millene Ramalho e Rita Elmôr
Música (criação e interpretação): Beto Lemos
Cenografia e Figurinos: Stephane Brodt
Iluminação: Renato Machado
Realização: Millene Ramalho e Galharufa Produções
Idealização do projeto: Millene Ramalho

 

SERVIÇO
“Agreste Malvarosa” – Amok Teatro
Teatro Municipal do Jockey – Av. Bartolomeu Mitre, 1.110 – Leblon. Entrada para o estacionamento: Rua Mário Ribeiro, 410 – Gávea. Tel.: (21) 2540-9853.
Horários: sextas e sábados às 21h30min e domingo às 21h.
Ingressos: R$ 15,00; R$ 7,50 (estudantes e maiores de 60 anos).
Classificação etária: 12 anos.
Duração: 1h15min.
Capacidade: 80 lugares.
Temporada: de 22 de janeiro a 14 de março